Notas de Epistemologia Fugás

::”The reason we don’t see the source of our problem is that the means by which we try to solve them are the source”

(Thought As a System -David Bohm)::

Todas as grandes e pequenas personalidades que lançaram grandes e pequenas idéias que nortearam os caminhos da história da humanidade, se já não foram refutados e até esquecidos, provavelmente um dia serão. Não porque suas idéias perderam coerência. Mas sim porque apenas eram coerentes a uma visão de mundo que será superada, carregando consigo para o fim, todas as suposições que sustentavam tais ideias.

Essas palavras que escrevi representam uma idéia que muitos já escreveram em suas próprias palavras. Isso que falei, também um dia perderá coerência com as percepções atuais desse dia que virá, serão outras épocas, sejam elas quais forem. Imaginar as formas dessa possibilidade muito me fascina.

Se examinarmos o conceito de perenidade, ou mais ainda, de preservação pela eternidade, o que tem disso o ser humano?

Alguns pensadores de meu tempo sustentam que nem o corpo físico, assim como é, sempre será. Sejamos como meros portadores de memes, como quer Richard Dawkins, sob mutações darwinianas, sejamos como integrantes de “raças humanas” que se sucedem em grandes eras akashicas, como dizem os modernos de orientação gnóstica.

A idéia de essência imutável, se aplicada ao ser humano, seria o quê? Apenas uma idéia e, portanto, refutável?

A idéia de transitividade em processo, como sugeriu Heráclito, seria um universal para Platão?

Enquanto isso, procuro ir sendo o que vou percebendo. Aliás, desconfio que, por mais que se fale por aí, poucos se dão conta do que significa (além de ser politicamente bonitinho) aquele pensamento de Gandhi sobre ser a mudança que queremos ver no mundo.

A percepção do maravilhoso

Quando se diz que as coisas são de um jeito, querendo se dar conta do estado do mundo, postulo que isso seja uma tarefa impossível. O mundo não é de um jeito. Ele é revelado de um jeito. Revelado para o sujeito que observa. O estado do mundo então, é uma apreciação subjetiva.

Podemos considerar o entendimento do mundo, preliminarmente, a partir de duas classes de manifestação de fenômenos.

Primeiro há a manifestação que ocorre no mundo e que se trata de absolutamente tudo o que acontece. Entre tudo o que acontece, está a observação dos sujeitos conscientes do mundo e todas as manifestações imateriais disso decorrentes. Essas manifestações todas retroalimentam o estado do mundo num processo contínuo. Poderíamos até fractalizar arbitrariamente as observações de forma a agrupa-las por categorias e níveis e ainda assim isso não daria conta de tudo o que acontece, considerando o observador como não omnisciente. Permaneceríamos num meio caótico, sem nexo aparente.

A outra classe de manifestação é aquela de comunicação daquilo que acontece. Não há comunicação sem que isso não sirva para alguma coisa. E, é claro, também não há comunicação sem que haja um sujeito que seja alterado por ela, isto é, para que exista comunicação é preciso que algo que tenha acontecido modifique o estado de um observador, o sujeito da comunicação. É preciso que esse sujeito comporte-se, mesmo que imaginariamente, de forma diferente do que fazia antes da informação proveniente da manifestação da comunicação. Se um sujeito não foi afetado, mesmo que minimamente por uma informação, é porque não houve comunicação.

Pode-se discutir que se não houve comunicação é porque também não houve manifestação. Não houve nenhuma diferença de estado manifestada no mundo. Pelo menos no mundo do sujeito. Quando se trata de pessoas, esse mundo do sujeito não é completamente particular. É um mundo em processo coletivo. Uma diferença que afete uma pessoa tem impacto de algum grau em outra. O sujeito desse processo é uma consciência.

Contrariando o que dissemos preliminarmente, a consciência é, sim, omnisciente.

Havíamos estabelecido, e vamos já desestabelecer, a existência de duas classes. A manifestação propriamente dita e a manifestação da comunicação dessa manifestação.

Mas podemos ter também a comunicação da manifestação da comunicação. Essa também pode ser comunicada. O processo então é infinito.

Se nos dirigimos àquela primeira manifestação, a qual nós chamamos de primeira classe de manifestação, ou seja, àquela que originou a primeira comunicação, podemos ver que ela também pode ser considerada uma manifestação de comunicação de alguma coisa que veio antes. Tudo o que acontece, acontece porque algo diferente aconteceu antes. Esse algo tem que ser diferente, senão nada perceberíamos que tivesse acontecido. A história do mundo, dessa forma, é um encadeamento de mutações. É um encadeamento de diferenças que vão fazendo diferença.

Mas esse mundo do qual falamos, esse mundo em eterna transformação, só existe para alguém que pode observa-lo. Aquilo que uma consciência não pode perceber, isto é, aquilo que não faz diferença, mesmo que seja infinitesimamente sutil, não existe para essa consciência.

Aqui estamos a falar então de consciência. Uma entidade abstrata que percebe diferenças e age em função disso para gerar mais diferença.

Como dissemos antes, se aconteceu algo que foi percebido pela consciência, se aconteceu uma manifestação, uma diferença, é porque isso faz parte de uma corrente de ação da qual a consciência faz parte. É o que tem significado.

Para que um encadeamento de diferenças, isto é, uma manifestação, tenha um significado, é preciso que isso seja operacional. É preciso que sirva para alguma coisa. É preciso que tenha um propósito. Esse propósito, para o qual serve o significado, é atribuído pela consciência. Pelo sujeito da manifestação. Então a consciência tem arbítrio. Tem também algum tipo de intensão com a qual se relaciona com o objeto do arbítrio, com o significado atribuído à manifestação.