A percepção do maravilhoso

Quando se diz que as coisas são de um jeito, querendo se dar conta do estado do mundo, postulo que isso seja uma tarefa impossível. O mundo não é de um jeito. Ele é revelado de um jeito. Revelado para o sujeito que observa. O estado do mundo então, é uma apreciação subjetiva.

Podemos considerar o entendimento do mundo, preliminarmente, a partir de duas classes de manifestação de fenômenos.

Primeiro há a manifestação que ocorre no mundo e que se trata de absolutamente tudo o que acontece. Entre tudo o que acontece, está a observação dos sujeitos conscientes do mundo e todas as manifestações imateriais disso decorrentes. Essas manifestações todas retroalimentam o estado do mundo num processo contínuo. Poderíamos até fractalizar arbitrariamente as observações de forma a agrupa-las por categorias e níveis e ainda assim isso não daria conta de tudo o que acontece, considerando o observador como não omnisciente. Permaneceríamos num meio caótico, sem nexo aparente.

A outra classe de manifestação é aquela de comunicação daquilo que acontece. Não há comunicação sem que isso não sirva para alguma coisa. E, é claro, também não há comunicação sem que haja um sujeito que seja alterado por ela, isto é, para que exista comunicação é preciso que algo que tenha acontecido modifique o estado de um observador, o sujeito da comunicação. É preciso que esse sujeito comporte-se, mesmo que imaginariamente, de forma diferente do que fazia antes da informação proveniente da manifestação da comunicação. Se um sujeito não foi afetado, mesmo que minimamente por uma informação, é porque não houve comunicação.

Pode-se discutir que se não houve comunicação é porque também não houve manifestação. Não houve nenhuma diferença de estado manifestada no mundo. Pelo menos no mundo do sujeito. Quando se trata de pessoas, esse mundo do sujeito não é completamente particular. É um mundo em processo coletivo. Uma diferença que afete uma pessoa tem impacto de algum grau em outra. O sujeito desse processo é uma consciência.

Contrariando o que dissemos preliminarmente, a consciência é, sim, omnisciente.

Havíamos estabelecido, e vamos já desestabelecer, a existência de duas classes. A manifestação propriamente dita e a manifestação da comunicação dessa manifestação.

Mas podemos ter também a comunicação da manifestação da comunicação. Essa também pode ser comunicada. O processo então é infinito.

Se nos dirigimos àquela primeira manifestação, a qual nós chamamos de primeira classe de manifestação, ou seja, àquela que originou a primeira comunicação, podemos ver que ela também pode ser considerada uma manifestação de comunicação de alguma coisa que veio antes. Tudo o que acontece, acontece porque algo diferente aconteceu antes. Esse algo tem que ser diferente, senão nada perceberíamos que tivesse acontecido. A história do mundo, dessa forma, é um encadeamento de mutações. É um encadeamento de diferenças que vão fazendo diferença.

Mas esse mundo do qual falamos, esse mundo em eterna transformação, só existe para alguém que pode observa-lo. Aquilo que uma consciência não pode perceber, isto é, aquilo que não faz diferença, mesmo que seja infinitesimamente sutil, não existe para essa consciência.

Aqui estamos a falar então de consciência. Uma entidade abstrata que percebe diferenças e age em função disso para gerar mais diferença.

Como dissemos antes, se aconteceu algo que foi percebido pela consciência, se aconteceu uma manifestação, uma diferença, é porque isso faz parte de uma corrente de ação da qual a consciência faz parte. É o que tem significado.

Para que um encadeamento de diferenças, isto é, uma manifestação, tenha um significado, é preciso que isso seja operacional. É preciso que sirva para alguma coisa. É preciso que tenha um propósito. Esse propósito, para o qual serve o significado, é atribuído pela consciência. Pelo sujeito da manifestação. Então a consciência tem arbítrio. Tem também algum tipo de intensão com a qual se relaciona com o objeto do arbítrio, com o significado atribuído à manifestação.